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A "verdade" e o patrimônio cultural de São Lourenço

Por Marco Aurélio Dias

Quando Antônio Francisco Viana encontrou as fontes de água mineral de São Lourenço, em Minas Gerais, não viu nenhuma “verdade” perdida no mato, assim como não existe nenhuma “verdade” perdida dentro de nós mesmos, o que explica o fato do pintor Benigno ter-me afirmado que “não chegou a nenhuma conclusão sobre a verdade”. Ora, não se pode chegar a nenhuma conclusão sobre algo que não se conhece. Toda verdade que existe tem que ser material, física e possível de ser conhecida. Claro que nossos atos determinam a escolha que fazemos de nós mesmos, e nossa identidade cultural muitas vezes determina nossos atos. Depois que João Francisco Viana morreu, Antônio, seu filho, veio tomar posse da fazenda que herdou do pai, e achou as fontes de água mineral que existem até hoje no Parque das Águas. Ele não veio atrás de uma verdade, mas de uma herança. A nossa “verdade” é a herança cultural que recebemos. Temos, portanto, que estar continuamente em busca de nossa herança cultural para fortificarmos nossa identidade pessoal e social. A nossa única “verdade” possível de ser achada e conhecida é essa estrutura social que se formou em torno das fontes de água mineral. Embora Benigno não tenha chegado “a nenhuma conclusão sobre a verdade”, talvez relativamente a alguma “verdade” apenas suposta por alguns doutores como etérea e espiritual, ele cresceu admirando as pinturas do Heitor Moretti na Igreja matriz de São Lourenço Mártir e se irrita quando falam na possibilidade de alguém mexer nas pinturas do artista. Para Benigno Ribeiro, é necessário ter mais respeito pelas pinturas de Moretti e conservar o mais possível a originalidade, sem transformá-las em mais brilhosas e em mais coloridas, pois, mesmo não sendo consideradas grandes obras de arte da pintura mundial, constituem o maior patrimônio da pintura acadêmica mineira em São Lourenço. Trata-se, no caso, de uma herança cultural formada nessa espiral da estrutura social dos sanlourencianos. Observemos que o pintor Benigno não se preocupa com a vida ou com a morte de Heitor Moretti, mas com a conservação da originalidade das suas obras. E quanto a vida? Por que não temos o mesmo zelo de conservá-la o mais natural possível? Acho, realmente, que não precisamos de conhecimento sobre a morte, principalmente por que não existe esse conhecimento comprovado como verdade científica, mas precisamos de conhecimento sobre a identidade cultural que caracteriza o povo de São Lourenço, tanto que o pintor Benigno, muito embora não tenha chegado “a uma conclusão sobre a verdade”, chegou a uma conclusão definitiva sobre a cultura da cidade: que as pinturas de Heitor Moretti, na Igreja Matriz de São Lourenço Mártir, precisam ser conservadas exatamente dentro do estilo em que foram criadas pelo artista italiano. Portanto, a estressante busca da verdade acerca da vida interna ou da conduta ética correta, o brilho intelectual que nos confere quando falamos sobre essa “busca” e sobre essa “verdade”, tais fugas não passam de uma certa dose de rejeição da realidade constatada ou até mesmo de uma falta de responsabilidade para com nossa herança cultural maior que é a vocação econômica voltada para o turismo. As leis já regulamentam a ética e determinam o que é certo e o que é errado. As opiniões e as doutrinas são pontos de vistas, as quais não podem me causar a angústia eterna de tentar descobrir qual delas é a verdadeira. Não posso ter compromisso com a verdade que não inventei. A angústia de não chegar “a nenhuma conclusão sobre a verdade” e ter que depender da fé para “aceitar” certas teorias sobre si mesmo, eu diria que é um tempo perdido, um tempo, aliás, que o turista que visita São Lourenço demonstra que não perde buscando uma suposta “verdade sobre si mesmo”, mas aproveita passeando, bebendo água mineral saudável e respirando o ar puro da Serra da Mantiqueira. Lembro que, em 1982, um comerciante, para mostrar a gravidade dos animais soltos no centro turístico de São Lourenço, me disse que um bode subiu na cabeça de um turista para comer as folhas da árvore. É claro que o comerciante exagerou na notícia que me deu, mas é uma imagem que serve para ilustrar a verdade sobre a identidade cultural de São Lourenço. Temos o turista; temos o bode solto na rua, que é a imagem do relaxamento para com o turista, e temos, finalmente, o comerciante preocupado com a taxa de visitação em São Lourenço, que representa a figura do gerente de turismo, atualmente o Sidney Cabizuca. Ora, se o próprio turista vem a São Lourenço buscar um pouco da nossa herança cultural, que são as nossas águas minerais, o nosso ar puro, o sossego, o clima ameno, sem nenhuma preocupação em “achar uma verdade sobre si mesmo”, eu diria que essa ”busca da verdade” é o “bode que subiu na cabeça do turista” e não o deixa em paz. Vamos concordar que não podemos viver em paz tendo um bode em cima da nossa cabeça. Uma vez que a identidade cultural quase sempre é determinante para a escolha que fazemos de nós mesmos, a grande verdade que podemos buscar em nós mesmos, como sanlourencianos autênticos, são as fontes minerais que jorram dentro do Parque das Águas e o compromisso com a identidade cultural que herdamos. E também temos o exemplo da simplicidade: algumas fontes de água mineral foram responsáveis pela geração de toda essa estrutura linda e dinâmica que é a cidade de São Lourenço, considerada, por muitos entendidos, a melhor estância hidromineral do Brasil. O fato histórico é que Antônio Francisco Viana não encontrou nenhuma “verdade” perdida no mato, mas apenas fontes de água mineral que ganharam a fama de curativas. Logo, concluo que vai ser difícil do pintor Benigno ou qualquer um de nós encontrar a certeza absoluta de alguma “verdade” em São Lourenço, todavia água mineral em abundância sem dúvida iremos todos encontrar sempre. E a consciência pragmática nos ensina que, na vida, temos que ir ao encontro do que podemos entender e confiar, e fortificar os laços que nos unem ao mundo prático e conhecido.

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